Um memorial é visto no estacionamento após um tiroteio em massa em um Walmart em Chesapeake, Virgínia, em 23 de novembro de 2022. (Reuters/Jay Paul)

Segurança psicossocial: Cobrindo a violência armada em sua comunidade

A reportagem sobre violência armada afeta todos os jornalistas. Mas há pressões específicas para os que cobrem  violência armada em suas próprias comunidades. Esses repórteres às vezes cobrem tiroteios em massa que se tornam histórias nacionais e internacionais, mas geralmente cobrem a violência cotidiana que envolve armas: tiroteios na vizinhança, violência de grupos criminosos, violência doméstica e suicídio.

A cobertura da própria comunidade pode capacitar e motivar os jornalistas locais, permitindo que forneçam um contexto importante e não necessariamente óbvio e vejam o impacto imediato e de longo prazo de seu trabalho. No entanto, a proximidade emocional e geográfica também pode levar ao aumento do estresse e do esgotamento, e pode até aumentar a probabilidade de desenvolver TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático).

Este guia tem como objetivo melhorar a capacidade dos jornalistas locais de cuidar de sua saúde mental enquanto cobrem a violência armada. Destinado a chefes de redação e jornalistas que fazem esse tipo de cobertura, o guia está organizado em três partes: antes, durante e depois de uma reportagem.

Antes da cobertura

Chefes de redação:
  • Forneça à equipe o apoio, as ferramentas e o conhecimento necessários para cobrir  violência armada de forma eficaz. Por exemplo, certifique-se de que todos os membros da sua equipe entendam como a exposição ao trauma pode afetar tanto as fontes quanto os jornalistas. Discuta os sinais físicos e emocionais da exposição ao trauma e organize sessões de treinamento com especialistas externos.
  • Reúna-se regularmente com a equipe. Pergunte quais recursos seriam úteis para apoiar o trabalho deles. Facilite para a redação a busca de apoio externo, como terapia. Nos Estados Unidos, a Journalist Trauma Support Network (JTSN) oferece uma relação de terapeutas dedicados a lidar com traumas que têm experiência em trabalhar com jornalistas.
  • Considere a identidade e o histórico dos membros da equipe. Por exemplo, pergunte a si mesmo se um repórter designado para cobrir uma história tem conexões com essa comunidade ou se conhece alguém afetado. Isso não significa que ele não deva realizar a cobertura; na verdade, esse fato pode torná-lo mais adequado para realizar a pauta. No entanto, eles podem precisar de apoio adicional. Lembre-se (especialmente em uma redação local) de que toda a sua equipe pode ser afetada por estresse secundário – ou trauma indireto – e não apenas os jornalistas em campo. Fique de olho nas pessoas que monitoram as mídias sociais e trabalham com imagens violentas ou outros conteúdos perturbadores. Eles não apenas serão expostos a conteúdo impactante, mas que pode estar relacionado a pessoas e lugares que eles conhecem.
  • Defina um objetivo/missão e articule-o com a sua equipe. Se os jornalistas acreditarem que estão fazendo a diferença na comunidade, a resiliência deles será maior. Reforce      que o assédio e a ameaça que podem enfrentar online não refletem de forma alguma a qualidade do trabalho deles.
Jornalistas:
  • Aprenda a identificar seus próprios sinais de estresse. Reconheça o que acontece quando

você se sente estressado ou sobrecarregado. Concentre-se em técnicas que possam ajudar a atenuar o problema, como escrever uma lista de estratégias que funcionaram para uma rápida consulta. 

  • Procure ajuda profissional se precisar. A JTSN, por exemplo, conecta jornalistas norte-

americanos com terapeutas treinados na cultura e nos desafios ocupacionais exclusivos do jornalismo.

  • O bem-estar dos jornalistas é apoiado pela crença de que seu trabalho tem propósito e

potencial de impacto positivo – que eles não prejudicam suas fontes. Isso é particularmente importante quando se trabalha em sua própria comunidade. Pesquise e aprenda técnicas de entrevista  sobre o relato de trauma antes de cobrir um evento. Por exemplo, uma série de dicas do repórter do Washington Post, John Woodrow Cox, oferece orientação essencial para entrevistar crianças.

Durante a cobertura

Chefes de redação:
  • Manter contato regular com os jornalistas durante a realização das matérias.
  • Fazer um levantamento de informações após cada atribuição ou no final de cada dia, se a reportagem estiver em andamento. Os relatórios úteis geralmente incluem a discussão do que deu certo, quais desafios surgiram e o que poderia ser feito de forma diferente.
Jornalistas:
  • Muitos jornalistas lutam para equilibrar a empatia e a compaixão com o distanciamento jornalístico. Se você ficar sobrecarregado ao cobrir a violência armada, não seja duro consigo mesmo. Por mais que você ache que entenda a situação, evite dizer às fontes durante uma entrevista que você entende como elas se sentem – cada pessoa vivencia o trauma de forma diferente.
  • A resiliência dos jornalistas é reforçada pela crença de que fizeram um bom trabalho. A realização de entrevistas sensíveis  sobre o relato de traumas é fundamental para isso. (Leia a entrevista do CPJ com quatro jornalistas que cobrem a violência armada para obter dicas sobre como conduzir entrevistas que relatam traumas). É importante demonstrar humanidade ao cobrir as consequências imediatas de uma tragédia. Não tente falar com alguém que não pareça estar preparado para lidar com uma entrevista; ou pergunte a si mesmo o que precisa ser mostrado ao seu público. Por exemplo, após um tiroteio em massa, você realmente precisa entrevistar as famílias no local? Em um tiroteio, não se concentre apenas no ato de violência: procure saber mais sobre a vida e os interesses das vítimas. Um guia do Dart Center for Journalism and Trauma oferece mais informações sobre como entrevistar vítimas e sobreviventes de eventos traumáticos.
  • É provável que os fotojornalistas, as equipes de mídia social e aqueles que trabalham com imagens sejam expostos a conteúdo de natureza negativa ao cobrirem a violência armada, especialmente quando se trata de sua própria comunidade. Algumas medidas podem ser tomadas para atenuar os efeitos desse conteúdo: faça pausas regulares, altere sua posição de visualização e considere a possibilidade de bloquear a parte mais angustiante de uma cena ou enquadramento – por exemplo, um lugar ou uma pessoa com o/a qual esteja familiarizado. Se começar a se sentir ansioso, pratique técnicas de respiração. Para saber mais, consulte o guia do Dart Center sobre como lidar com essas imagens.

Após a cobertura

Chefes de redação:
  • Fique de olho nos membros da equipe que estiverem cobrindo histórias difíceis e considere a possibilidade de oferecer oportunidades de intervalo ou outro alívio, como cobrir uma história mais leve. Se eles tiverem conduzido uma entrevista difícil pela manhã, pergunte se  gostariam de se concentrar em algo menos intenso à tarde. Não deixe de oferecer um tempo fora do trabalho, como uma tarde ou um fim de semana prolongado. Reduza o contato durante as horas de folga.
  • Esteja atento à sua própria saúde mental e siga os conselhos que dá à sua equipe: reconheça se estiver começando a se sentir sobrecarregado, estabeleça limites entre o trabalho e sua vida pessoal e procure ajuda profissional se precisar.
Jornalistas: 
  • Faça anotações cuidadosas, claras e com registro de data e hora enquanto estiver ouvindo gravações ou trabalhando com documentos que contenham conteúdo emocionalmente difícil, para que não precise ouvir ou ler repetidamente. 
  • Limite sua exposição a imagens violentas. Pesquisas mostram que a exposição repetida a imagens traumáticas pode aumentar o risco de trauma secundário – esse risco aumenta quando a pessoa que manuseia as imagens possui uma conexão pessoal com os eventos. Há várias precauções que podem ser tomadas. Elimine a exposição desnecessária e repetida organizando meticulosamente seus arquivos; faça pausas frequentes da tela; não passe imagens que contenham elementos trágicos para colegas sem avisá-los sobre o conteúdo. Para saber mais, consulte o guia do Dart Center sobre como lidar com imagens perturbadoras.
  • Certifique-se de tirar um tempo fora do trabalho. Relaxe fazendo exercícios, caminhando ou socializando. Tente não se envolver com conteúdo negativo ou perturbador fora do trabalho – em vez disso, leia livros, ouça podcasts, pratique esportes e faça outras atividades agradáveis que ajudem a distrair sua mente. Aproveite todas as oportunidades de folga remunerada.
  • Em geral, os jornalistas afetados de perto por uma tragédia local podem achar útil participar de celebrações e cerimônias religiosas. Os jornalistas não estão apenas cobrindo a tragédia da comunidade; eles também estão vivendo na comunidade.
  • Desenvolva relacionamentos de apoio com seus colegas. Pesquisas mostram que o apoio de colegas é um dos fatores mais importantes associados à resiliência dos jornalistas.

Se você ou seus colegas precisarem de apoio adicional, entre em contato com o Dart Center (DartWebsite@gmail.com) ou com o Comitê para Proteção de Jornalistas (emergencies@cpj.org).

Recursos do CPJ e do Dart Center: